Dez faixas, pouco menos de quarenta minutos e fica claro: temos uma voz. Uma voz com estilo, personalidade e ideias, para além do charme do timbre "meio antigo". Uma voz com olhar - sensível, irônico, olhar de cronista atenta às urgências e carências dos relacionamentos e dos não-relacionamentos contemporâneos.

Depois da estreia com Tempo, em 2012, a artista que se revela neste segundo álbum, Dance com seu Inimigo, vem com pacote completo. A produção, os arranjos e as
escolhas musicais de Donatinho sublinham a assinatura de Julia Bosco, fazendo acenos oitentistas que funcionam como pontes multigeracionais (afinal, os anos 80 foram viagens diferentes para cada turma - e mais diferentes ainda para quem nasceu depois do fim deles).

Por sua vez, o repertório, ancorado em oito composições inéditas (cinco co-escritas por Julia, outras pinçadas de amigos e pessoas com quem tem afinidade - "gente que me frequenta", como ela bem resume), delimita com coerência um universo pop brasileiro que é totalmente deste milênio.



 

Julia Bosco

Julia chamou Donatinho para produzir já com um conceito na cabeça, interessada no toque vintage analógico do produtor e tecladista carioca. A parceria deu em casamento, retomando uma história antiga entre os dois. Um pouco disso está contado em uma das parcerias do casal, a terna "Cada dia, um dia", com o arranjo para quarteto de cordas dialogando com a voz até o fade: "Dá vontade de chorar"...

A faixa título, conduzida pela linha de baixo de Alberto Continentino e pelos sintetizadores do incrível arsenal de Donatinho, abre o salão e a pista, imperativa.


Composta por Julia Bosco, Donatinho e Gustavo Macacko (com quem a cantora teve um projeto em tributo ao bendito Sérgio Sampaio) dá match instantâneo e corre para o abraço pop, rimando "lichia" com "hipotermia".

"Tanguloso", de Julia e Donatinho, vem na sequência, com humor semelhante e mais veneno nos contrastes. A canção decola em direção ao sublime no quarteto de cordas encaixado, mas no refrão manda um papo reto de mensagem de texto: "Eu preciso te comer/ eu preciso saciar a fome"...

A bela versão de "Maçã Última", composta pela jovem gaúcha Gisele de Santi, amplia a persona da intérprete. Parte na contramão das duas faixas anteriores e fala de um relacionamento platônico, idealizado. A filiação indie da gravação original (lançada por Gisele em 2013) ganha suingue no piano Fender Rhodes e um colorido especial nos synths com timbres de bandoneon e cravo salpicados. 

A bela versão de "Maçã Última", composta pela jovem gaúcha Gisele de Santi, amplia a persona da intérprete. Parte na contramão das duas faixas anteriores e fala de um relacionamento platônico, idealizado. A filiação indie da gravação original (lançada por Gisele em 2013) ganha suingue no piano Fender Rhodes e um colorido especial nos synths com timbres de bandoneon e cravo salpicados.

Julia brilha e se encaixa confortavelmente no groove elegante de "Volume", faixa de extração "leninista" composta por Ana Clara Horta, João Bernardo, Gabriel Pondé e Miguel Jorge. Soa sexy sem ser irônica, com o apoio essencial do trombone de Marlon Sette e o flugel de Diogo Gomes. Com referências no nu soul de D'Angelo, lembra aquilo que em outros tempos se chamava de hit radiofônico.

Em "Quem Me Passa o Coração", escrita com as amigas Juliana Sinimbú e Marcela Bellas, "deitadas na minha cama tomando vinho", o baixo feito no sintetizador e os brinquedinhos rasgam o clima new wave, reforçado por marcantes vocais de Tulipa Ruiz. E o recado neo-romântico da letra rejeita a pegação sem envolvimento, o tal "amor líquido" que o Bauman engarrafou conceitualmente: "Passa o olho, passa o dedo, passa a língua, passa a mão/ (...) Só não passa o coração, só não passa o coração, amor".

Em "Quase Nada de Novo", parceria dos feras Fernando Temporão e Cesar Lacerda, jovens talentos da canção, Julia abraça a dor de cotovelo a sério em descaídas para o samba-funk, com Donatinho azymutheando o que há de bom. 

A inédita "Cartas Marcadas" é um delicioso presente de Dona Onete, tesouro musical paraense de 76 anos que estreou em disco tardiamente, apenas em 2012. Donatinho, que a teve como convidada em seu álbum solo, Zambê, fez a ponte, e durante visita a Belém, Julia ganhou um carimbó chamegado, abolerado, calipsado para deitar e rolar na malandragem da letra.

Ela também está à vontade na pós-moderna "Vampiro", de Jorge Mautner, revelada no fim dos anos 60, mas com frescor inalterado quase meio século depois.

O lirismo desconcertante da canção-vinheta "Pra Gozar", parceria com Emerson Leal, fecha o disco em tom intimista. E merece ter seus 106 segundos ouvidos pela primeira vez sem spoilers.

Assim termina Dance Com Seu Inimigo, com gosto de quero-mais, dedinho coçando para o repeat ou para aquela difusão pelos playlists nossos de cada dia. Aqui temos uma voz. 

Sejamos todos ouvidos para ela.

Pedro Só

Julia Bosco Dance com seu inimigo
Lançamento: Coqueiro Verde Records (2016)

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